Thursday, January 25, 2007

É de chorar

São Paulo é de chorar. De raiva, amigo. Esta mesma cidade que acolheu pai e mãe e fez seu filho brotar é a mesma que escanteia quem não tem. Não vou lembrar dos buracos e ruas de terra que passei na infância, porque aquela, sim, era uma metrópole menos amarga e mais dócil, a "que amanhece trabalhando", conforme a música brega grudada à sua imagem e semelhança. A cidade dos trabalhadores, o foco de resistência dos anos 70, a que gostava de ter sua imagem atrelada aos operários grevistas da década de 20, dos anarquistas, aos bairros operários de sul e leste. Mas é a mesma que não dá bola aos seus heróis, seja um anônimo ou o mártir Santos Dias.
São Paulo, meu amigo, é nada que você queira se não é daqui. E se for, talvez o que mais queira é querer sair. Deixa essa cidade apodrecer, eu não tenho dó. Deixa que a sua elite _cada vez mais branca no sentido insípido e inodoro da coisa, cada vez mais moralmente anódina, cada vez mais parte de apartheid social_ apodreça com ela. São Paulo, meu caro, não é minha vida. São Paulo, meu caro, é a mesma que confina seus pobres mortos em cemitérios que mais parecem campos de concentração (já deu uma passada no São Luiz para ver como seus filhos são enterrados?), é a mesma que põe dois pesos e duas medidas àqueles nascem de um lado e aos que vivem do outro. Esta metrópole não é a mesma que floresce com a sua "riqueza" cultural, de mentiras clássicas que repetidas à exaustão parecem verdades. No fundo, talvez ela seja como o pastel de bacalhau do Mercadão: a fama não justifica a grandeza e o sabor nem sempre compatíveis.
PS: a vontade de escrever isso surgiu com o texto de Ferréz hoje na pág. 3 na Folha.

Monday, January 01, 2007

Culto à barriga

Os homens vêm se apequenando em questões menos importantes, como decoração e culinária, coisas que não acrescentam nada além de um toque fútil, de um elogio abobado ao meio da noite que os seus costumes podem sim estar próximos dos dela (pois elas, sim, já dispensaram o guia, o ritual da aproximação, o gosto por ter você por perto _costumes que a gente jamais largou).
Então é a hora de nós cavarmos nosso próprio espaço, que pode estar acobertado de coisas dignas de macho antigo (futebol, cerveja, mulher, culto à barriga) como de outras que a gente precisa para entender o mundo. Então dê ao nosso contexto o direito de brigar pelo mesmo, de explodir sem nem mesmo ter uma TPM de desculpa. A gente quer beijar o céu sem ver estrelas.
Um mundo solto, sem divagações perdidas em meio a eternas discussões de relacionamento.
O macho anda muito escondido para mostrar que medo não tem da barriga que creio regada a muito chope, a muita discussão vazia, mas também de muita briga feia pelo mundo que vive.
Pois tragamos o homem que discute política de volta aos bares, salas e reuniões. O novo homem é um pouco de tudo, mas as revistas cismam em nos transformar numa massaroca sem forma.
E temos forma, sim. Um pouco arrendondada na região do abdômem, mas que não deixa de ser a nossa forma de explicar os anos zero-zero _e aí complete com o que quiser, ok, james bond?